Quando Aldous Huxley escreveu o seu “Admirável Mundo Novo” criou ficcionalmente uma sociedade desumanizada em que o Homem tinha sido subjugado pelas suas próprias invenções, resultado de a ciência, a tecnologia e a organização social por ele criadas para o servirem e apoiarem, terem-no, gradualmente, dominado e escravizado. Huxley escreveu esta sua primeira obra distópica em 1932 e imaginou a acção da obra a decorrer cerca de 600 anos mais tarde. Mas perto do fim da vida – Huxley morreu em 1962 – confessou que, trinta anos mais tarde, teria diminuído essa distância temporal para, no máximo, 200 anos. Eu diria que se fosse hoje talvez não chegássemos aos 100 anos. Mas, o que tem o “Admirável Mundo Novo” a ver com a SST? – perguntarão os leitores. Tem tudo a ver… ou nada. Não terá nada a ver se formos daqueles que vivem deslumbrados pelo progresso a qualquer custo, que nos fecha cada vez mais nos casulos a que chamamos casas, com tudo à mão de uma tecla, ou de um comando, cada vez mais isolados da sociedade na qual estamos desintegrados, escravizados por algoritmos e equipamentos de vigilância, numa vida(?) em que o nosso laptop já se tornou mais indispensável que o apêndice ou a vesícula, e em que nos apelidamos pomposamente de nómadas digitais, quando não passamos de náufragos sociais à espera não de um navio salvador mas de um novo lançamento ou actualização que nos prolongue a fidelização à escravidão virtual. Terá tudo a ver… se formos daqueles que consideram que os progressos da ciência e das tecnologias devem estar sempre ao serviço da humanidade e nunca de um Homem, chame-se ele Musk ou Bezos, ou qualquer outro apelido de duvidosa origem americana, por muitos algarismos em que se traduza a sua conta bancária. E terá tudo a ver porque, como nós prevencionistas bem sabemos – vem nos O envelhecimento traz consigo transformações naturais dos sentidos. A audição pode diminuir, a visão perde acuidade, o corpo perde agilidade e pede outro ritmo. Mas o que verdadeiramente fragiliza não é a mudança sensorial em si; é a forma como a sociedade lhe responde. Falar mais alto não é o mesmo que escutar melhor. Repetir não substitui a atenção. E decidir por alguém, sem o envolver, não é proteger — é retirar autonomia.
Escutar, na terceira idade, é um ato de segurança ativa. Reduz erros, previne acidentes, reforça a confiança e mantém a pessoa ligada ao mundo que a rodeia. Um idoso ouvido é um idoso mais atento aos sinais do próprio corpo, mais disponível para cumprir orientações, mais confiante para comunicar dificuldades.
A escuta cria um espaço seguro onde a palavra circula e, com ela, a prevenção. Há ainda uma dimensão relacional frequentemente esquecida quando se fala de segurança: a intimidade no sentido mais amplo do termo. Não se trata apenas de proximidade física, mas de confiança, de reconhecimento, de sentir-se considerado. Relações seguras reduzem comportamentos de risco porque diminuem o isolamento, a ansiedade e o medo de falhar. Ninguém se protege sozinho.
Talvez por isso “os avós” tenham tanto a ensinar-nos sobre segurança. Não uma segurança ruidosa ou normativa, mas uma segurança feita de tempo, de presença e de escuta. Uma segurança que começa quando alguém se dispõe, verdadeiramente, a ouvir o que o outro tem para dizer — mesmo que fale devagar, mesmo que se repita, mesmo que traga consigo o peso dos anos e as histórias que ouvimos vezes sem conta. Num mundo apressado, escutar pode parecer um luxo. Na verdade, é uma necessidade. E talvez seja na maturidade, quando o essencial se torna mais claro, que percebemos isto com maior nitidez: a segurança constrói-se com regras, mas sustenta-se com relações humanas: “O essencial é invisível aos olhos”, Saint-Exupéry.
No fundo, talvez a terceira idade não seja a terceira coisa nenhuma. Talvez seja apenas a idade em que já não precisamos de provar nada — e isso, curiosamente, torna-nos mais seguros. E, quem diria, também mais disponíveis para ouvir.
Luís do Nascimento Lopes
Vice-Presidente da FENEI/SINDEP