Entrei este ano, de forma oficialmente reconhecida, na chamada “terceira idade”. Não houve cerimónia nem aviso prévio — apenas a constatação tranquila de que, a partir de agora, posso opinar sobre certos assuntos com a legitimidade que os anos, espera-se, conferem. Porque a idade, antes de ser um número, é acumulação: de experiências, de erros, de observação atenta do mundo. Em suma, de conhecimento. Se assim é, importa perguntar por que razão, numa sociedade que envelhece, esse conhecimento nem sempre é escutado.
Falamos muito de segurança — no trabalho, nas organizações, nas instituições, na vida quotidiana — mas raramente refletimos sobre um dos seus pilares mais simples e mais negligenciados: a escuta. Associamos segurança a normas, procedimentos, equipamentos e regulamentos, todos indispensáveis. Contudo, há um plano mais profundo onde ela verdadeiramente se constrói: o da relação humana. Ouvir é tão protetor quanto qualquer dispositivo técnico. Talvez mais, sobretudo quando o aumento da esperança de vida prolonga a vida laboral e transforma o envelhecimento num tema estrutural e não episódico.
Na terceira idade, a falta de escuta torna-se um fator de risco real. Quando a palavra deixa de ser valorizada, quando a experiência é confundida com resistência à mudança, instala-se uma forma discreta de insegurança. Quem não se sente ouvido comunica menos, minimiza sinais, adia pedidos de ajuda. O silêncio, nestes casos, não é serenidade — é exposição ao risco. O envelhecimento traz alterações naturais dos sentidos, mas o que fragiliza verdadeiramente não é a mudança fisiológica; é a resposta social a essa mudança. Falar mais alto não é escutar melhor. Decidir por alguém, sem o envolver, não é proteger — é retirar autonomia.
Escutar, na terceira idade, é um ato de segurança ativa. Reduz erros, previne acidentes, reforça a confiança e mantém a ligação ao mundo. A escuta cria um espaço onde a palavra circula e, com ela, a prevenção. Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida quando se fala de segurança: a qualidade da relação. Relações baseadas em confiança e reconhecimento reduzem comportamentos de risco porque diminuem o isolamento e o medo de falhar. Ninguém se protege sozinho.
Num mundo apressado, escutar pode parecer um luxo; na realidade, é uma necessidade. Talvez seja na maturidade que esta evidência se torna mais clara: a segurança constrói-se com regras, mas sustenta-se com relações humanas. “O essencial é invisível aos olhos”, escreveu Saint-Exupéry. No fundo, talvez a terceira idade não seja a terceira coisa nenhuma. Talvez seja apenas a idade em que já não precisamos de provar nada — e isso, paradoxalmente, torna-nos mais seguros e, quem sabe, mais disponíveis para ouvir.
Leonor Carmo
Escritora