Segue o texto reorganizado com quebras de parágrafo lógicas, respeitando a progressão temática (EUA → sistema internacional → Europa → estratégia económica → China → Portugal → conclusão), para melhorar legibilidade e ritmo argumentativo:
A situação que o mundo actualmente vive não é uma situação completamente inesperada, porque o indivíduo que ocupa a Casa Branca (ou pelo menos o que dela resta) já, no seu primeiro mandato, tinha demonstrado a sua incapacidade política, o total desrespeito pelos seus aliados, a sua inacreditável ignorância cultural e outras características menos próprias que poderão ser mais bem explicadas por quem possua habilitações para tal.
O que este indivíduo faz nos Estados Unidos só aos americanos diz respeito e, por mais desagradável ou inqualificável que possa ser, ou até que nos faça regredir à Alemanha dos anos 30, é a regra da democracia.
No que se refere ao sistema internacional, quando os seus membros são maltratados, insultados ou desrespeitados, estes têm de se defender sob pena de deixarem de ser livres e autónomos e passarem a ser subjugados.
Já nesta revista tivemos ocasião de afirmar que os EUA, com a actual presidência, não são um aliado da Europa, situação mais do que comprovada pela recente polémica sobre a questão da Gronelândia e pelas ameaças de que a ilha fará parte dos EUA “a bem ou a mal”.
Sejamos sérios: o interesse norte-americano na Gronelândia não tem a ver com matéria de defesa e cúpulas douradas, porque, para tal, bastava um acordo com a Dinamarca, da mesma forma que possuem com muitos países onde têm bases militares e onde, inclusive, estacionam armas nucleares tácticas. O que está em causa é a questão dos minerais que a Gronelândia possui, em particular as terras raras, razão pela qual Trump, no suposto acordo de princípio, vem dizer que estes minerais serão explorados pela NATO em conjugação com os EUA, ou seja, nada tem a ver com defesa.
É verdade que a China e a Rússia teriam interesse na Gronelândia? Sim, é natural. É um território geograficamente estratégico e possui recursos naturais significativos. Mas os EUA não precisam de ser donos do território para o defenderem; basta cumprirem os tratados a que se obrigaram, designadamente o tratado da NATO.
Outra questão é a posição dos países europeus.
Durante muitos anos, à boa maneira europeia, vivemos despreocupadamente sob a protecção dos norte-americanos e, quais cigarras, não nos interessou o futuro, nunca imaginando que o mundo pudesse dar uma volta e que o nosso maior aliado se viesse a transformar em nosso adversário. Neste argumento, Trump, como outros presidentes norte-americanos advertiram, tem razão.
Ainda assim, quando os EUA chamaram, a Europa esteve presente, designadamente no Afeganistão, ao contrário do que proferiu o presidente americano. Tal constitui um ultraje e insulto a todos os europeus que morreram ou ficaram feridos naquele teatro de guerra.
Os avisos repetidos de que a Europa necessitava de levar a sério a sua própria defesa caíram em ouvidos surdos e transformaram-se em bússolas, estratégias e iniciativas que nunca pretenderam ser mais do que boas intenções.
Agora não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Importa aprender a lição, avaliar as consequências reais e potenciais, definir objectivos futuros, escolher as vias para os atingir e desenvolver os meios que as sustentem.
A situação referente à Gronelândia pode ser uma oportunidade para a Europa perceber que a sua voz só tem importância se for única, respaldada pelos vários países e suportada por suficiente força militar. De outra forma, continuará a assistir a eventos, insinuações e insultos por parte de quem apenas respeita quem lhe faz frente.
A educação, o sentido de conciliação e a racionalidade dos líderes europeus devem ter limites. Já há exemplos disso: o discurso do primeiro-ministro canadiano em Davos e a posição clara de Christine Lagarde, que abandonou o jantar com o secretário do Comércio dos EUA quando este criticava empresas europeias.
Para além de culpar o presidente dos EUA por parte da instabilidade internacional, alguns países europeus são também responsáveis pela sua incapacidade de antecipação estratégica. Veja-se o caso das reservas de ouro alemãs estacionadas nos EUA.
Uma resposta estratégica europeia às ameaças de tarifas poderia passar pela venda de títulos de dívida pública norte-americana, dos quais a União Europeia possui cerca de 2 triliões de dólares e a Alemanha aproximadamente 110 biliões. Porém, se a Alemanha avançasse com tal medida, seria plausível que os EUA bloqueassem a retirada do ouro. Isto revela falhas de visão estratégica. Não serve de desculpa dizer que ninguém esperaria tais comportamentos; antecipar cenários adversos é precisamente o núcleo da estratégia.
Será também altura de a União Europeia rever a sua posição relativamente à China, à semelhança do Canadá e do Reino Unido, e reforçar laços com a Índia. Esta reavaliação enfurece alguns comentadores que tratam a China como ameaça absoluta, muitos dos quais confiaram excessivamente nos mecanismos de “check and balances” do sistema político norte-americano, como ficou demonstrado no dia 6 de Janeiro de 2021. Entre análises especulativas e previsões falhadas, confundem frequentemente desejo com realidade.
No que se refere a Portugal, importa abandonar a postura de “esperar para ver” e assumir posições claras, ainda que articuladas com parceiros europeus.
Não se compreende que não tenha decidido sobre a participação no designado Conselho para a Paz, que continue a equacionar a aquisição de aviões militares dos EUA — apesar das reservas já expressas pelo ministro da Defesa — ou que não tenha enviado uma representação militar nominal para a Gronelândia, à semelhança de outros países europeus. A Grã-Bretanha enviou um oficial; gesto simbólico, mas politicamente significativo.
Portugal é um país pequeno e tem peso reduzido no concerto europeu e nas relações entre blocos. Contudo, isso não deveria impedir decisões coerentes com os princípios que afirma defender. Solidariedade não se declara; demonstra-se. Caso contrário, reforça-se a irrelevância e a dependência.
Portugal não deve repetir o erro europeu das últimas décadas. A história pode mudar a qualquer momento, para o bem ou para o mal.
Na nossa dimensão, também temos de nos preocupar primariamente connosco.
Paulo Macedo
Professor Universitário